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Day & Night

Depois de tantos anos, já não será surpresa para ninguém que antes de um filme Pixar, temos direito a uma curta-metragem de animação. E a acompanhar Toy Story 3 nas salas de cinema, somos presenteados com a mais original e arriscada curta da Pixar. O responsável pela excelente sequência de créditos finais de The Incredibles, Teddy Newton, escreveu e realizou Day & Night, uma fantástica e divertida lição sobre a tolerância, racismo, diferença e discriminação.

Day & Night é um híbrido de animação tradicional e animação CGI. Um mundo 3D “dentro” de duas personagens animadas em 2D é a base técnica desta criação de pura originalidade. Dois bonecos que não conseguem tolerar as suas diferenças e que se olham com estranheza e inveja em vez de admiração e apreço são o centro daquela que é a curta da Pixar mais moralista e que irá maravilhar o público com a sua (já estou farto de repetir o mesmo) originalidade. Ainda vale mais a pena ir ver o Toy Story 3 ao cinema para antes do dito filme, termos o prazer de assistir a este regalo.

Fear of the Unknown. They are afraid of new ideas. They are loaded with prejudices, not based upon anything in reality, but based on... if something is new, I reject it immediately because it's frightening to me. What they do instead is just stay with the familiar. You know, to me, the most beautiful things in all the universe, are the most mysterious.

Toy Story 3
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A Pixar continua a superar-se a si própria.

Nunca tive dúvidas que Toy Story 3 seria um grande filme. Mas perguntei-me a mim próprio “Será que é o melhor filme da Pixar? Ou ficará aquém de algumas das obras anteriores do estúdio?” Bem, a resposta é fácil: Toy Story 3 é o melhor filme da Pixar e também o melhor filme de 2010 até à data. É incrível como um filme com brinquedos consegue ser tão adulto e atingir o público mais velho de uma forma tão arrebatadora. Preparem-se para chorar, preparem-se para sorrir, preparem-se para uma das melhores experiências que o cinema nos pode oferecer.
Postais da Pixar a dez cêntimos
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Sim, é como eu disse. Por apenas 10€ (e 48 cêntimos) comprei uma colecção de 100 postais da Pixar pela Book Depository (loja online de livros com portes grátis para todo o mundo). Os postais são compostos maioritariamente pela arte gráfica que antecede a realização dos filmes: sketchs de personagens,  telas de cor, storyboards, etc. Claro que também há screenshots dos filmes, mas só postais com stills dos filmes teria muito menos valor. A colecção de 100 postais abrange todas as longas e curtas-metragens da Pixar, desde a sua primeira incursão em The Adventures Of André & Wally  B. (1984) até ao último filme de John Lasseter até à data, Cars (2006). Ficam de fora tesouros como Ratatouille, Wall-E e Up (talvez no futuro um volume 2 desta caixa…). Os postais são mesmo muito bons: o cartão é de óptima qualidade, o artwork é da Pixar, não vale a pena dizer mais nada… Para além disso, os postais vêm numa caixa muito engraçada. Bem, não há qualquer defeito a apontar.

É escusado dizer que recomendo vivamente a qualquer apreciador de arte ou da Pixar (ou dos dois). Aqui fica o link para fazerem a fácil (não precisa de registo no site) e rápida (demorou menos de duas semanas a chegar) encomenda de The Art Of Pixar: 100 Collectible Postcards. Digam o que acharam e, se vos convenci a comprar, comentem para eu saber. Continuem para ver mais imagens.
Alice In Wonderland
A movie as mad as a hatter.
Fosse pelo hype gerado à volta do filme, fosse pelo realizador, fosse pelo elenco, fosse pela história, Alice In Wonderland tinha criado grandes expectativas. No final de hora e meia de filme, a sensação que predomina é de desilusão. Um argumento muito mal desenvolvido e o que poderia ser um grande filme, tornou-se numa oportunidade desperdiçada.
The Princess And The Frog (VP)
A década passada pode-se dizer que foi um trambolhão completo para a Disney Animation. Deixaram de lado a animação tradicional. Deixaram de lado as histórias de princesas. Tentaram fazer desenhos animados fixes, adaptados a esta nova geração. Tentaram fazer filmes de animação por computador como a Pixar faz. Tentaram ser aquilo que não são. Agora, começamos 2010 com o regresso da verdadeira e mágica Walt Disney, num conto de fadas mágico, como já há muito tempo não víamos.
Sherlock Holmes
A visão de Guy Ritchie e a irreverência de Robert Downey Jr. combinaram muito bem na reinvenção do detective britânico com capacidades dedutivas inigualáveis. Num filme que sentimos ser mais uma introdução para a prometida sequela, do que um marco por si só, a sensação final não é de desilusão. Antes pelo contrário, a apresentação ao Sherlock Holmes de Guy Ritchie deixou um gosto de entusiasmo para o filme que porá Holmes em confronto directo com o seu inimigo de sempre, o Prof. Moriarty.
It's Complicated

Nancy Meyers tem um currículo curto de comédias românticas inteligentes. Depois de ter dirigido estrelas como Natasha Richardson e Dennis Quaid (Parent Trap, 1998), Mel Gibson e Helen Hunt (What Women Want, 2000), Jack Nicholson e Diane Keaton (Something’s Gotta Give, 2003) e Kate Winslet e Cameron Diaz (The Holiday, 2006), chegou a vez de pegar na extraordinária Meryl Streep e colocá-la no meio de dois grandes actores de comédia: Alec Baldwin e Steve Martin. Continuando um pouco com a receita do costume, parece que Meyers gosta de dar às suas protagonistas uma grande vivenda de fazer inveja a muitos, uma carreira de sucesso, etc. Mas adiante…
Up In The Air

Dois anos depois de Juno, que parecia esforçar-se demasiado para ser indie, Jason Reitman consegue aqui um filme saboroso e muito bem escrito.
Nine

Sete anos após o oscarizado Chicago, e depois de um não muito apreciado Memoirs Of A Geisha, Rob Marshall regressa onde se sente à vontade, ao musical. Numa Itália dos anos 60, esta obra baseada no filme de Frederico Fellini, 8 1/2, e no musical da Broadway com o mesmo nome, Marshall pegou num elenco luxuoso de beldades talentosas e fez um filme com uma classe diferente da de Chicago e que claramente é mais selectivo no público que irá agradar.
Pixarpedia
Encomendei a semana passa pela Amazon UK a Pixarpedia. Chegou ontem! Primeiro, vamos à descrição do produto pela Amazon:

"The best of Pixar…and beyond Pixar are the animation giants behind incredible movies including Toy Story, Monsters Inc, Finding Nemo, Wall.E and Up. Go behind-the-scenes and find out all there is to know about this extraordinary company. Learn about the fascinating rise of Pixar, from their history and creative talent to the secrets behind their unique movie-making process. From Woody to Lightening McQueen, discover little-known facts and trivia about the characters from all their major and short films. Plus, pick up inside knowledge from which fishy character pops up in Monsters Inc. to why the number A113 appears in all Pixar films. Packed with timelines, fantastic pictures and movie-stills, this is an essential guide to the ultimate movie-making machine."

Graficamente, o livro é todo ele ilustrado com imagens dos filmes. Não tem aquela arte gráfica que podíamos esperar vinda dos artistas da Pixar. O livro analisa os filmes e personagens, mas do ponto de vista do observador. Pouca ou nenhuma informação é dada sobre a criação dos personagens, histórias de behind-the-scenes, etc. Basicamente, é uma revisão de todos os personagens que aparecem nos filmes. Desde o cowboy Woody, ao limpa-janelas que vê Carl a atravessar a cidade na sua casa suspensa por balões.

O livro começa com um prefácio de Andrew Stanton (Finding Nemo e Wall-E). In The Beginning fala-nos sobre as origens da companhia e a sua entrada no mundo do cinema. Timeline conta-nos uma curta sinopse do que se passou pela Pixar desde a sua primeira curta-metragem. The Movies oferece-nos cerca de 300 páginas ilustradas sobre as longas e curtas-metragens do estúdio. Desde Toy Story a Up e de Gery's Game a Partly Cloudy, todos os personagens que aparecem nos filmes, mesmo aqueles que quase não damos conta, são documentados. Páginas com screenshots dos filmes, os ambientes e cenários principais de cada um e alguma trivia, que, para os fãs da Pixar, não será nada de novo. Mas para estes, a Pixarpedia é um livro a comprar. Não é muito caro (mesmo com portes ficará à volta de dos 25€) e é, no mínimo, maravilhoso folhear 352 páginas cheias de imagens e informação sobre o universo do Toy Story, A Bug's Life, Toy Story 2, Monsters Inc., Finding Nemo, The Incredibles, Ratatouille, Wall-E e Up. No final, temos ainda a secção ...and Beyond com um uma ficha técnica de cada filme, os já tradicionais Easter Eggs da Pixar e entrevistas a dez funcionários dos estúdios.

Capa dura com capa removível e com uma tamanho considerável, a Pixarpedia ficará bem na prateleira de qualquer admirador da Pixar e do seu cinema.

Vale a pena comprar: se forem fãs da Pixar.
Não comprem: se estiverem à espera de um making of dos filmes ou um behind-the-scenes sobre as origens dos personagens.
2012
O Apocalipse dos filmes catástrofe.

Roland Emmerich já nos enviou extra-terrestres para nos destruir (The Independence Day), já ameaçou a população com um lagarto gigante (Godzilla) e já nos congelou o hemisfério norte (The Day After Tomorrow). Como se ainda não bastasse, agora rebentou com o planeta inteiro.
Quanto à história, não há muito a dizer. Em 2009, cientistas descobrem que, devido a fenómenos solares, a crosta terrestre está prestes a sofrer transformações drásticas. Os líderes mundiais depressa arranjam um plano de construir autênticas Arcas de Noé no Tibete. Em dois anos, conseguem miraculosamente (este filme está cheio de miraculosamentes) construir tais monstros da engenharia em segredo mundial. Extraordinariamente, esta foi a parte que mais gostei do filme, em que vemos como é que numa situação extrema se concebe um plano de sobrevivência deste calibre.

Para além deste projecto de sobrevivência megalómano, que a pouco e pouco é-nos revelado, o filme segue a aventura miraculosa de Jackson Curtis (John Cusack) e sua família na tentativa de sobreviver à catástrofe global. Desde as ruas caóticas da Califórnia, às montanhas geladas da China, é impressionante como tudo acontece ao milímetro. Onde Jackson e a sua família pisam, no segundo seguinte está tudo destruído. Guiando por ruas misteriosamente sem trânsito e atravessando prédios inteiros em Los Angeles, escapando num jacto por entre uma cidade em ruínas, fugindo numa caravana de um vulcão em explosão, até escapar de um avião dentro de um Bentley, esta família consegue tudo e mais alguma coisa tornando este filme o ex libris das impossibilidades, coincidências e milagres. No fim de contas, a família atravessa o Pacífico com a ajuda de personagens que são autênticas caricaturas de estereótipos e após coincidências que nos deixam um cheiro nauseabundo a forçado, encontram e conseguem entrar nas enormes arcas de salvação (tão sofisticadas e seguras que permitem que vá tudo por água abaixo graças a alguém que conseguiu entrar sem ser convidado e encravou tudo com um simples cabo) que, em vez de terem espécimes férteis da espécie humana, estão cheias de velhos milionários.

Os efeitos especiais deslumbram na caótica destruição do planeta, quer seja pelo tsunami a invadir as montanhas do Tibete, a queda do Cristo Redentor no Rio de Janeiro, a parafernália de caos nas ruas de Los Angeles, ou ainda o porta aviões John F. Kennedy a destruir a Casa Branca. Vale a pena ir ver ao cinema. Mas só por isto. Não contem com mais nada de novo. O resto é o de sempre já visto e reciclado. Um conjunto de situações e personagens cliches que deixam o espectador a adivinhar o que se vai passar. Não fosse o elenco de grandes actores, 2012 ainda metia mais água. É pena as personagens serem meros fantoches. O Chefe de Gabinete do Presidente (Oliver Platt) é perspectivado como o mau carácter, como já é costume neste tipo de personagem pragmático, mas que toda a gente precisa neste tipo de situações. A filha do Presidente (Thandie Newton) é uma mera figurante. É vendida como sendo uma personagem de alguma relevância, mas no final não passa de um muitíssimo forçado par romântico para o geólogo Hemsley (Chiwetel Ejiofor), já que o filme era exactamente igual sem ela. Esta corrida desenfreada de sobrevivência não dá sequer espaço para desenvolvimento dos personagens, embora também não seja preciso muito, porque já todos conhecemos estes heróis dos filmes americanos...
Concluindo: 2012 tem efeitos especiais, efeitos especiais e ainda efeitos especiais.


Julie & Julia
Uma agradável comédia que nos dá vontade de fazer algo excepcional. Sim, somos normais, não somos excepcionais, mas podemos fazer muito mais do que aquilo que somos.
Com muitos paralelismos, o filme retrata duas histórias reais que se cruzam apenas através da cozinha. Julia Child (Meryl Streep) a fazer crescer a sua paixão pela cozinha na França da década de 50, simplesmente porque não tinha nada para fazer. Julie Powell (Amy Adams) em Nova York pós 11 de Setembro a ser salva de uma crise existencial através do livro de Child "Mastering The Art Of French Cook".

Julia Child: a corajosa, forte e amorosa americana que foi viver para Paris depois da 2ª Guerra Mundial descobriu a sua paixão e talento para a cozinha por um simples razão: adorava comer e não tinha nada para fazer. Os maneirismos de Streep e o seu dom para domar qualquer sotaque deram-nos uma Julia Child que facilmente nos convence da riqueza da pessoa e da sua entrega à cozinha. Pode parecer demasiada caricatural, mas bastará ver um dos antigos vídeos dos programas de culinária de Julia Child, que nos apercebemos rapidamente que ela é tão entregue, energética e característica quanto Streep a representa. O seu marido Paul (Stanley Tucci) tem uma tamanha importância em toda a personalidade de Julia que, sem esta dinâmica do casal, a sua vivacidade e alegria de viver não seriam a mesma. Desde os gags hilariantes de Julia Child na escola de culinária, até à emocionante concretização do seu livro, a deliciosa história da famosa cozinheira tem um gostinho especial só possível graças à ternura e simplicidade de Streep.

Julie Powell: a trintona, frustrada e sonhadora americana que trabalha num cubículo que não a deixa subir na vida. A sua vontade de querer fazer algo na vida de que se orgulhe leva-a a pegar no livro de receitas de Julia Child. 365 dias, 524 receitas. Um blogue onde regista o seu ano de entrega, sacrifício e concretização que a pouco e pouco tem cada vez mais seguidores. O seu fascínio por Julia chega a ser enternecedor a ponto de ser impossível não sentir compaixão pela determinada aspirante a escritora/cozinheira. Tal como para Julia, o marido de Julie (Chris Messina) torna-se mais do que um apoio, uma peça fundamental para esta se manter inteira e realizar-se pessoalmente. A promissora Amy Adams transmite uma doçura que derrete os corações de manteiga que se vão deliciar com estas duas horas tão agradáveis que, depois de ver o filme, dão uma vontade enorme de cozinhar um proeminente boeuf bourguignon. Tudo isto com comédia e drama q.b.
Não esquecer a partitura de Alexander Desplat (The Curious Case Of Benjamin Button) que recheia o filme com uma saborosa melodia. Nora Ephron consegue ainda sublinhar a importância de sermos normais. Não somos fantásticos nem conseguimos feitos grandiosos. E depois? Qual é o mal? Mesmo assim, saio da sala de cinema com uma vontade enorme de concretizar algo. Ainda bem. Que todos os filmes fossem assim. Uma receita perfeita para fugir aos apocalipses e aos vampiros que assombram as salas de cinema neste Inverno.


Public Enemies
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Muito tempo para pouco argumento.

O elenco, o género e o realizador do filme foram factores que ajudaram à mediatização e consequente crescendo de expectativas em torno do mesmo. Foi então determinante para a maior desilusão que o acompanhou após a estreia. Michael Mann (Colateral e Miami Vice) toma conta da câmara nas cenas de perseguições e tiroteios com um trotar e cambalear que segue as personagens em vez de simplesmente as seguir fluentemente, enquanto que causa a claustrofobia necessária para causar o desconforto do próprio Dillinger (Depp) quando procura passar despercebido entre a multidão do cinema. A escolha de limitar o filme ao período final de Dillinger, a que corresponde a época de transição dos anos 30 em que J. Edgar Hoover cria o que vem a ser o FBI, faz perder um pouco da evolução da personagem que seria importante para manter o interesse do público em Dillinger. Tanto tecnicamente (com a fotografia e banda sonora), como em pequenos sub-plots, o filme transmite impressionantemente o espírito e tom da Depressão dos anos 30, espelhando bem o clima dessa época.
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Já quanto ao desenrolar do enredo, acaba por não haver muito para além do que já esperávamos e seria inevitável: com assaltos, perseguições, capturas e fugas pelo meio, Dillinger é morto pelo FBI no final do filme sem vermos uma verdadeira trama capaz de nos despertar o interesse ou algum espanto, já que tudo se passa muito previsivelmente. Nem mesmo o seu caso romântico com Billie (Cotillard) soube ser explorado, acabando por existir puramente por fidelidade ao que aconteceu. Além do mais, nem o casal tem aquele trovão de Bonnie & Clyde, embora Marion Cottilard agarre o pouco que tem e o tente transformar em muito. Já Bale, continua no insuportável piloto automático que parece manter desde Batman, vísivel também no mais recente Terminator. Johnny Depp aqui num papel bastante diferente ao que nos habitua, num registo mais discreto, mas aproveitando o forte personagem que interpreta, com a sua intensidade dramática latente na representação de Depp.

Com tudo isto, acentua-se a inexistente exploração do argumento que aborrece durante as duas horas e vinte para aqueles que, como eu, esperavam mais um filme de gangsters do que um filme de época, acabando por ser o equilíbrio entre estes dois que denota o filme da sua sensibilidade e ao mesmo tempo da sua violência, que não chega a ser suficiente para despertar um interesse mínimo durante o extenso filme.
Up

Mas que aventura...

Comecemos por isto: fui com as expectativas no máximo! E não tanto à espera de algo assim. Os últimos dois filmes da Pixar elevaram a fasquia num nível altíssimo e tinham histórias homogéneas no que toca à fronteira entre o que atrai os adultos e o que fascina as crianças. Em Up, é clara a linha que separa as duas principais linhas narrativas do filme: a comovente e belíssima história de Carl Fredricksen (excelente personagem, ao nível de Remy ou Wall-E), o velhote que ambiciona cumprir o desejo da sua falecida mulher, e a mirabolante cruzada por Kevin, a ave rara que o explorador Charles Muntz desesperadamente procura.

Nos primeiros minutos do filme somos transportados pela vida do casal Carl e Ellie numa excepcional e poética montagem de quatro minutos, que, sem quaisquer diálogos ou efeitos sonoros, nos faz sentir mais envolvidos e ligados com aquele casal apaixonado do que em filmes inteiros de romance, tanto graças aos que vemos como à música de Giacchino (é fantástico como com uma simples imagem nos apercebemos da infertilidade de Ellie). Frustrado com a sua vida sem Ellie e com o progresso à sua volta, Carl decide partir na sua casa rumo a Paradise Falls, culpado por não ter satisfeito o mais antigo desejo da falecida esposa. Acidentalmente, Carl ganha a companhia de Russel, um escuteiro trapalhão que transforma esta aventura numa verdadeira história de avós e netos, tal como é habitual nos filmes da Pixar [a temática da família]. Todas estas peripécias e transtornos inerentes à vida real e ao nosso mundo poderiam ter sido mais bem aproveitados, mas o filme acaba por enveredar numa aventura bem mais complicada, envolvendo cães falantes, aves exóticas e um explorador sem escrúpulos. E é aí que Up tem o seu defeito: é demasiado ambicioso e acaba por ficar num desequilíbrio sem sabermos bem que tipo de filme quer ser, talvez pela necessidade de agradar aos mais novos. Embora nada disto nos aborreça, ficamos com a sensação de que Up podia ter sido abordado de uma forma mais séria, já que a vontade de Carl e o seu amor para com Ellie (que acaba por se personificar na casa) resultariam perfeitamente num filme deveras sentimental e mais direccionado ao público adulto.

O possível descontentamento com o desvio da história de Carl e da sua casa, para destaque da perseguição de Kevin, é facilmente esquecido pela fantástica aventura cheia de entusiasmo e emoção, como só sentimos em filmes como Raiders Of The Lost Ark, que Up nos proporciona. Enquanto que preferia a concentração total na comovente e penetrante cruzada de Carl, não deixo de pensar que o filme deslumbrou na abordagem aventureira e divertida muito bem conseguida, tornando-o provavelmente no filme mais "funny" da Pixar. Tudo isto com um estilo muito clássico, que claramente define Up, ao oposto do futurismo de Wall-E.

Michael Giacchino, que já tinha dado provas de mestria em The Incredibles e Ratatouille, cria um tema musical fantástico que acompanha na perfeição o espírito aventureiro e a tal classicidade dos filmes de Hollywood, embora talvez usado excessivamente. Quanto à imagem, pfuuu... O que é que há para dizer? A Pixar deslumbra novamente com a tecnologia que sabe utilizar como ninguém, principalmente com a oportunidade que tiveram de retratar paisagens fabulosas e lugares exóticos, em que o 3D se fez notar na percepção de profundidade, apesar de limitar um pouco as cores e o ecrã de filme (o melhor é mesmo ver a versão original, que não está disponível em 3-D). As texturas, cores, criaturas, paisagens e tudo o resto estão deslumbrantes e cada vez mais perfeitas. Pete Docter cumpre com distinção o seu segundo trabalho como realizador (Monsters Inc. em 2001). A Pixar sabe mesmo o que está a fazer. Up é Altamente!
Uma nota no Harry Potter
Sim, fui mauzinho a opinar no Half-Blood Prince. Mas não, não me esqueço da fotografia do filme. Mas e depois, não é só isso que conta. O filme foi um descalabre no argumento, na história, no ponto principal de tudo isto. Porque é que se fazem mais filmes? Por haver uma história para contar. Aqui não foi contada história nenhuma. Quem não leu o livro, foi ver o filme e não percebeu nada, ou então pensa que J.K.Rowling é uma pobre escritora.
Aliás, ainda me faltou falar da banda sonora. Que tristeja, tiveram um dos melhores compositores do mundo do cinema, John Williams, e agora têm um medíocre compositor de televisão, Nicholas Hooper. Sei que já há petições para trazer de volta John Williams para terminar a saga. Procurem-nas e vejam se ajudam a melhorar os últimos filmes, para que não sejam a pobreza que foi este.
Sim, hoje não estou para dar abébias a nenhum.
Ice Age 3: Dawn Of The Dinossaurs
A Idade do Gelo, Outra Vez!

Não me vou estender com este filme, porque o próprio também não fez para inovar ou sequer me cativar. Acaba por ser uma história igual a tantas outras, numa repetição de uma fórmula já muito usada: o já conhecido grupo perde um dos elementos, e os restantes partem em seu socorro. A adição de duas personagens novas (a doninha Buck e a esquila matreira) não salvam o filme da sua cansativa e bocejante sensação de repetição. A perseguição da bolota continua a ser o ponto forte do filme, mas como tal é apenas um "sketche" que funciona fora da narrativa, em nada contribui para nos cativar para o enredo principal. Após alguns sorrisos ou mesmo gargalhadas, os bocejos prevalecem neste terceiro capítulo, que espero sinceramente que seja o último. Não é mau, mas também não é bom. Se não traz nada de novo, fiquemos por aqui. Perdoem-me a frieza, mas tem que ser assim: curto e directo.
The Boat That Rocked
Richard Curtis (argumentista de Nothing Hill e Love Actually e realizador de Love Actually) desilude na componente que seria o seu ponto forte: o argumento. O filme acaba por se arrastar sem termos verdadeiramente uma linha condutora ou mesmo um objectivo para as personagens. Pronto, o filme peca nisto, mas os críticos do Público (isto sem querer mensionar o nome do Jorge Mourinha) odiaram esta pérola de Verão. O ponto essencial da crítica dele foi precisamente o argumento. Mas mesmo assim, ficou-se por uma estrela. O filme desilude, já que esperávamos um argumento muito mais rico e completo por parte de Richard Curtis, mas não vale a pena ficarmos com a visão enevoada por este ponto fraco. O filme é muito divertido, tem um elenco de fazer inveja (que fantásticos Bill Nighy, Philip Seymour Hoffman e Nick Frost!) e a personalidade britânica está fortemente vincada nesta comédia que dá dez a zero às já mais que repetidas e maçadoras comédias românticas americanas (isto sem querer mensionar The Proposal). O conjunto de cromos e figuras que dão vida ao tão carismático barco foram muito bem criadas, tendo o filme um conjunto de personagens muito bem definidas e caricatas que dão azo às mais divertidas e inesperadas situações. Para além disto tudo, não esquecer o tema do filme. Os anos de ouro do pop-rock! O tema e o contexto sócio-político, bem como a banda sonora, não deixam que o filme se afunde nem por um segundo. É impossível não mexer o pé. Let's Dance!

Portanto, sem esquecer as críticas mordazes e eficientes dos críticos do Público, se já estão fartinhos de ir ver sempre os mesmo blockbusters de Verão, não há melhor do que o muito britânico (e ainda bem) The Boat That Rocked.
Harry Potter And The Half-Blood Prince

Medíocre. Não consigo pensar num aspecto positivo do filme para além dos efeitos especiais, que mesmo assim já são o costume...

O que dizer...
  • As hormonas aos saltos durante o filme todo ridicularizam e exageram a componente romântica do livro, quase comparando o filme com uma comédia adolescente, tipo Disney;
  • A narrativa é maçadora ao ponto de não haver uma linha de enredo que ligue e cative o espectador para aguentar as duas horas e quinze de filme. Apesar da tentativa de dramatização e mistério da missão de Malfoy, a história foi tratada de uma forma tão simples e linear que não se justificava a extensão do filme e do falso suspense até à "invasão" final;
  • A morte de Dumbledore, o apogeu dramático do filme, foi mal aproveitada. Para além das incorrecções com o livro, as situações dos personagens foram mal posicionadas e os últimos momentos tiveram um diálogo fraco e desprovido da emoção que deveria conter, não fazendo justiça à cena escrita por J. K. Rowling;
  • O desaproveitamento do personagem Severus Snape é o desastre do filme. Alan Rickman poderia ter aqui uma oportunidade para brilhar e ganhar uma grande relevância no filme, mas o argumentista secundarizou a personagem que mais importância e protagonismo ganha ao longo da saga. Se no livro Snape dá um passo em frente na importância, mistério e complexidade da personagem, no filme perguntamos "Porquê este título?". É de lamentar e apontar o dedo ao realizador David Yates por esta falha enorme. (e também é de lamentar ser ele o realizador dos dois últimos filmes).
No final de contas, a essência do filme não está lá. Os fãs da saga, leitores das aventuras de Harry Potter, devem ser os que menos irão gostar desta péssima adaptação. Esperemos que Harry Potter And The Deathly Hallows não seja nada disto.
Brüno

Temos aqui um filme com bolinha... Antes de mais, há-que saber para o que se vai quando se compra um bilhete para ver Brüno. Se ficaram chocados com Borat, não se atrevam a ir ver a nova aventura de Sacha Baron Cohen: arriscam-se a sair da sala a meio, e não têm direito a reembolso. Depois, não pensem que a classificação M/16 não deve ser levada em conta. Fiquei de boca aberta quando vi um homem a sair da sala com a filha bem criança (nem sei como é que manteve lá a garota 20 minutos).


O enredo do filme (se é que se pode chamar isto), assemelha-se muito ao de Borat. Temos a personagem controversa de Cohen a visitar os EUA e a entrar em colisão com a população norte-americana. Continua a crítica e sárita feroz à sociedade americana, bem como o estilo de documentário, que na maior parte dos "sketches" é mesmo uma espécie de apanhados. Criar situações reais e provocatórias que expõem as verdadeiras reacções dos vários estereótipos norte-americanos que todos conhecemos é o verdadeiro trunfo do filme e da sua estrutura. E temos que admitir: Brüno tem tomates para ter feito o que fez! Mesmo ficando na dúvida do quão real ou encenada é a provocação de Brüno, continuamos sempre com aquele espanto e desconforto perante as aparatosas peripécias deste gay nos Estados Unidos.


À parte dessas situações inteligentemente criadas, o resto é sexo. Muito sexo atirado à cara durante todo o filme. E não vem tudo com um quadrado preto em cima a censurar. E esta parte mantém-se na linha da provocação. Mas agora já não só os actores ou os americanos apanhados por Brüno que são atropelados pela nudez e frontalidade homossexual. Somos nós, os espectadores, que são provocados e postos à prova, estando aqui latente o espírito destemido de Sacha Baron Cohen. Como é que reagimos quando nos atiram com um pénis a balançar à cara? Aproveitem e contem quantas pessoas não aguentam e saem antes do filme acabar.

Desta feita, as peripécias do gay austríaco Brüno acabam muito por ser um filme pornográfico: a história so lá está para nos sujeitar a várias cenas de sexo e controvérsia, acabando estas por funcionar na perfeição como sketches independentes. É por isso que, apesar da genialidade e ferocidade de Cohen, Brüno funciona muito melhor como série de televisão do que como filme, pois tal como nos filmes pornográficos, a história é criada para mostras cenas, em vez das cenas serem criadas para contar a história. Mesmo assim, é melhor termos um Brüno nos cinemas, do que mais uma gasta e repetida comédia romântica. Haja originalidade!

Para terminar, aqui ficam 10 razões para ir ver Brüno, pelo próprio Brüno:
  1. Hello? I'm in it.
  2. Brüno is a flamboyantly gay entertainer who makes people uncomfortable, like David Letterman.
  3. Harry Potter isn't the only movie character who's good with his wand.
  4. I do a lot of this.
  5. It's rated "F" for fabulous.
  6. Don't you want to see a crazy gay austrian who isn't the Governor of California?
  7. If you ask nicely, the guys behind the candy counter will rub the chemical butter all über your buttocks.
  8. I'm sorry, I got distracted by how delicious I look.
  9. Features lots of suggestive words like "Bratwurst" or "Schintzel".
  10. It's like Transformers, but not as gay.
Synecdoche, New York
Não consegui esperar que chegasse às salas de cinema, desculpem-me. Já tinha tudo preparado para ver a sua estreia em Junho, mas adiarem o filme para Agosto foi uma estalada na cara. Já não bastava o filme ser de 2008, estarem a mudar a data em cima da hora para dois meses depois foi demais. Lá fui vê-lo, por meios ligeiramente ilegais...

Charlie Kaufman já nos tinha prendado com os argumentos de filmes como Being John Malkovich, Adaptation, ou EternItálicoal Sunshine Of The Spotless Mind. Agora, para além de escrever Synecdoche, New York, também o dirigiu. O seu primeiro trabalho como realizador é uma das mais profundas e penetrantes obras cinematográficas dos últimos tempos.

Philip Seymour Hoffman (Capote, Doubt) interpretou na perfeição a imperfeita vida de Caden Cotard. Desde as preocupações com a sua saúde, aos seus dilemas morais e emocionais com Hazel (Samantha Norton), Caden revela-se um personagem deveras complexo. A complexidade de Caden não seria tão evidente e tão perfeitamente representada sem toda a parafernália de pessoas que compõe a vida deste encenador de teatro. A sua mulher (Catherine Keener) depressa o faz ver que não quer que ele faça parte da sua vida, indo, durante uma semana "interminável", com a filha dos dois para a Europa lançar a sua exposição de pintura. A sua psicóloga (Hope Davis) é melhor a vender livros de auto-ajuda do que a ajudá-lo verdadeiramente. A sua box-office, Hazel (que vive numa casa a arder), revela as dificuldades emocionais que Caden não consegue controlar, enquanto que a sua actriz principal (Michelle Williams) acaba por ser um despertador para a realidade que ele tenta transpôr para a peça, mas que acaba por ser uma realidade que o próprio tarde demais consegue compreender. É fantástico como, após seguir os seus anos e anos de complicadas relações e problemas, me embrenhei completamente dentro da sua própria mente, tal como ele se perde dentro da sua própria vida. A metáfora é levada ao extremo em múltiplas cidades e representações da vida real que ele tanto tenta transformar numa peça de teatro que se prolonga eternamente. Um último destaque para a música de Jon Brion. Grande Little People!

É sem dúvida um filme a ver, que espero que não passe despercebido e nem seja esquecido. Parece que ninguém reparou nele aquando da nomeação aos prémios da indústria... Pelo menos teremos um bom filme para fugir à vaga de filmes de Verão de Agosto (excepção feita a Up, é claro).